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ALEX: Muito bom dia! No programa de hoje nós vamos falar sobre amamentação. É sempre bom lembrar das vantagens que esse ato de amor representa tanto para a mamãe quanto para o bebê. Recentemente nós tivemos a semana da amamentação que é comemorada desde 1992. Ela tem o objetivo de estimular a proteção, a promoção e o apoio ao aleitamento materno. Hoje nós vamos conversar com a doutora Maria Beatriz que é pediatra neonatologista, especialista em aleitamento materno. Doutora, bom dia! Por que amamentar é tão importante para o bebê?
Dra. BEATRIZ: A amamentação é a forma mais segura e natural de alimentação da criança pequena e ela traz a diminuição da mortalidade infantil. O leite humano possui elementos de defesa que protegem a criança contra a doença. Então a gente vê que, contra doenças infecciosas, essa proteção é realmente muito importante já que uma criança que é amamentada tem um risco 14 vezes menor de morrer de diarréia ou três vezes menor de morrer de pneumonia. E isso é importante num país em desenvolvimento, como o nosso. Mas, além disso, as pesquisas têm mostrado também que a amamentação protege contra as doenças do adulto, ou seja, a criança que é amamentada na infância vai ter na vida adulta um menor risco de pressão alta, colesterol alto e até diabetes. Então isso realmente faz a diferença.
ALEX: Quer dizer que, ao amamentar a mãe está de alguma forma imunizando o filho até a idade adulta?
Dra. BEATRIZ: É a prevenção da doença do adulto com hábitos adequados já na infância.
ALEX: E em relação à mãe, qual é a vantagem da amamentação?
Dra. BEATRIZ: Essas vantagens da amamentação também são importantes para a mãe, que terá um menor risco de hemorragia no pós-parto, portanto, ela terá menos anemia, menor risco de câncer de ovário, de mama e de osteoporose. Também a amamentação protege contra uma próxima gravidez. Há um espaçamento maior entre as gestações e isso é também importante para a saúde da mulher.
ALEX: No caso da mãe que deve amamentar o filho, como ela deve se preparar para este ato de amor?
Dra. BEATRIZ: O mais importante é que ela tem que estar certa de que a imensa maioria das mulheres pode produzir leite e que esse leite vai ser bom para o seu filho. Então na gravidez ela precisa fazer um bom acompanhamento no pré-natal, onde eles vão examinar as mamas da mulher, verificar se tem alguma alteração, ela pode participar de palestras sobre aleitamento para estar certa das vantagens da amamentação para o seu bebê e para a sua saúde também. E o máximo que ela precisa fazer é tomar um banho normal, não passar sabonete nas mamas e tomar um pouco de banho de sol, já que o sol ajuda a deixar a pele um pouco mais resistente. Não há necessidade de massagens e fricções, de se espalhar bucha ou escovinha, não precisa de cuidado especial nenhum porque a própria gravidez vai preparando a mama para a amamentação.
ALEX: É normal sair um pouco de leite na mama durante a gravidez?
Dra. BEATRIZ: Sim. Esse é o colostro ou primeiro leite, que algumas mulheres já percebem o seu aparecimento durante a gravidez. Mas algumas outras mulheres vão perceber o colostro somente após o parto e isso também é normal.
ALEX: A mamãe pode pedir para amamentar o bebê já na sala de parto?
Dra. BEATRIZ: Com certeza. A amamentação precoce desde a sala de parto é muito importante porque isso faz com que essa amamentação possa ser mais prolongada e ajuda a fazer com que o útero retorne ao normal mais rapidamente. Então ela deve pedir sim.
ALEX: E o uso de medicamentos na hora do parto, até mesmo a anestesia. Isso não atrapalha a amamentação?
Dra. BEATRIZ: Veja: um medicamento ou um sedativo que seja usado para essa mulher, pode passar através da placenta para o bebê e deixar o bebê mais sonolento e com dificuldade de mamar. Da mesma forma a mãe também vai ficar mais sonolenta por causa da medicação e isso pode atrapalhar o início da amamentação.
ALEX: Doutora é normal, no início, a mãe sentir um pouco de dor quando amamenta o filho?
Dra. BEATRIZ: Isso é bem comum, especialmente na primeira semana. Ela pode sentir um pouquinho de dor ou ardência na hora em que o neném começa a mamar. O que não pode é doer o tempo inteiro. Se ela estiver sentindo dor durante toda a mamada é porque o bebê provavelmente não está pegando o seio da forma correta. Ele deve estar pegando só o bico do seio, que é o mamilo e não a parte marrom, que é a auréola e que tem os depósitos de leite. Então a gente precisa corrigir essa pega para que não haja problema na amamentação.
ALEX: De que forma se corrige isso?
Dra. BEATRIZ: O bebê tem que abrir bem a boca para que ele consiga abocanhar uma grande parte da mama e daí possa fazer com que a amamentação não seja dolorosa.
ALEX: Como a mãe deve segurar o bebê na hora de amamentar?
Dra. BEATRIZ: A gente sempre orienta as mulheres de que a posição para amamentar é aquela em que ela e o bebê estejam confortáveis. Então ela pode amamentar sentada ou deitada e o que é importante é que o bebê esteja bem próximo dela - a gente fala barriga com barriga – e ele esteja bem apoiado para que a cabeça esteja em frente ao peito e ele consiga fazer uma pega bem correta.
ALEX: A mãe deve comer ou beber alguma coisa em especial para ter leite?
Dra. BEATRIZ: O leite vai descer independente da alimentação da mulher. Há uma crença de que se a mulher tomar muito líquido como chá, água ou leite, ela vai produzir mais leite, mas isso não é verdade. Ela tem que tomar líquido para matar a sua sede e ter uma alimentação bem variada.
ALEX: Aquela idéia de cerveja preta que antigamente se tinha, isso não é verdade também?
Dra. BEATRIZ: O álcool passa rapidamente para o leite, então na verdade o que se sabe hoje é que a criança ficaria mais sonolenta e não choraria, o que daria a sensação de que haveria mais leite. Mas se a mulher ingerir álcool ela deve ficar até duas horas sem amamentar para que o álcool não passe para o bebê.
ALEX: Em relação à comida. Ela precisa comer mais para amamentar?
Dra. BEATRIZ: Quando a mulher produz leite ela gasta calorias do seu organismo para produzir o leite. Então o que a gente sempre orienta é que ela tenha uma alimentação normal, podendo aumentar a ingesta de alimentos em até 500 calorias, ou seja, um sanduíche, um copo de leite desnatado e uma fruta, além do que ela está habituada a comer. Antigamente se dizia que a mãe precisava fazer restrição alimentar, só comendo canja ou sopinha, não podendo comer feijão ou repolho, mas isso não é verdade. A mulher pode ter uma alimentação normal e comer de tudo.
ALEX: O feijão e o repolho não provocam gases no bebê?
Dra. BEATRIZ: Na maioria dos bebês não. Então se a mãe percebe que algum alimento que ela comeu pode ter alteração, ela pode discutir com o médico do bebê se há a necessidade da retirada daquele alimento. Mas, em geral, não há necessidade de restrição alimentar.
ALEX: Quando a mulher amamenta, ela pode passar tintura no cabelo?
Dra. BEATRIZ: Quando a mulher está amamentando ela deve dar preferência para usar produtos mais naturais porque a gente sabe que a tintura do cabelo contém amônia e isso pode, eventualmente, ter alguma alteração no leite. É raro, mas a gente pode sugerir que ela use acetinagem ou henna que são produtos mais naturais.
ALEX: O ato de amamentar diminui o desejo sexual da mulher?
Dra. BEATRIZ: Isso varia de mulher para mulher. Algumas mulheres referem o aumento do apetite sexual durante esse período e outras referem uma diminuição. O que a gente tem que lembrar é que, durante a gravidez e durante a amamentação a mulher passa por muitas transformações, especialmente hormonais, mas também na mudança na vida em termos de cuidados com o bebê. Então ela pode estar mais cansada porque o bebê acorda várias vezes para mamar ou ela tem que trocar, dar banho, enfim, a sua rotina de vida muda e isso pode interferir. Em relação à quantidade de hormônios o que pode acontecer é que a mulher tem uma alteração da lubrificação vaginal e isso pode tornar o ato sexual mais doloroso. Mas não tem problema, ela pode usar esses lubrificantes comprados em farmácias e supermercados e isso vai tornar o ato sexual mais fácil.
ALEX: Além de todas as vantagens que a senhora falou, existe também a redução de despesas quando a mãe amamenta o filho, não é isso?
Dra. BEATRIZ: Sem dúvida. Há um impacto econômico e social do uso do leite humano porque a família em que a criança está desmamada vai precisar comprar mamadeira, leite para substitui o leite humano, chupeta, ela vai ter que ferver tendo que usar o gás, enfim, isso vai trazer um aumento nos custos. Sem contar na economia se essa criança estiver sendo amamentada porque a criança ficando menos doente vai gastar menos com medicamentos e transporte até o médico. A gente vai entrar numa cadeia de economia se pensarmos que, se a criança não fica doente, a mãe não vai faltar ao trabalho, ou seja, o patrão também é beneficiado com isso e o sistema de saúde como um todo também, porque a criança ficando menos doente vai trazer menos despesa para o sistema de saúde.
ALEX: Como a mãe deve agir na hora de desmamar a criança?
Dra. BEATRIZ: É importante que esse desmame seja gradual. Muitas vezes a criança vai naturalmente largando o peito e a gente precisa lembrar que a recomendação da Organização Mundial de Saúde é que a criança seja amamentada exclusivamente até os seis meses, ou seja, ela não vai usar água, chá, chupeta ou outro leite. E a partir dos seis meses serão introduzidos outros alimentos de boa qualidade, saudáveis e preparados com higiene para que a criança mantenha sua vida saudável. Essa primeira fase a gente não chamaria de desmama. É a transição, o início da alimentação complementar, mas essa amamentação pode ser mantida por dois anos ou mais e isso vai depender do desejo da mãe ou da criança.
ALEX: O Receita de Saúde falou hoje sobre amamentação. Quem conversou conosco foi a doutora Maria Beatriz que é pediatra, neonatologista. A doutora Beatriz também é especialista em aleitamento materno. Doutora, muito obrigado pela sua participação aqui no nosso programa! E o Receita de Saúde fica por aqui. Voltaremos amanhã com mais um tema de saúde que vai interessar a você. Até lá! |