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ALEX: O Receita de Saúde de hoje vai falar sobre alergia. As doenças alérgicas representam um problema de saúde pública, atingindo mais de 20% da população. As manifestações alérgicas geralmente se iniciam na infância, embora possam surgir em qualquer idade. Para nos falar sobre esse assunto, convidamos o doutor Paulo Ferreira Lima que é especialista em alergia e também imunologia, e trabalha em Florianópolis. Doutor, bom dia! Todos nós sabemos o que é uma alergia, mas como ela se dá?
Dr. PAULO: A alergia é a resposta de uma pessoa de uma maneira completamente diferente, ou seja, ela responde sempre para mais. Por exemplo, se você é picado por uma vespa, isso dá uma reação local. Já a pessoa alérgica, responde praticamente como uma coisa grave com tosse, asma e coceira pelo corpo todo. Então é uma reação alterada da pessoa sempre para mais ou para pior.
ALEX: Quais pessoas tem maiores chances de ter alergia?
Dr. PAULO: São praticamente duas causas: a primeira é a carga genética, ou seja, se ele tem mãe ou pai que tem asma ou rinite, ele tem 70% de chance de ter uma dessas doenças. Se é apenas a mãe, ele tem 50% de chance porque fica durante nove meses dentro da barriga da mãe e se é apenas o pai, essa chance cai para 30% por causa da carga genética. Além disso, o meio em que ele vive, ou seja, se ele tem essa carga genética e vive no meio de gatos, cachorros e poeira isso também vai influenciar. Assim, vai depender da carga, do meio e do estímulo que ele recebe.
ALEX: É possível que numa família um irmão tenha alergia e o outro não?
Dr. PAULO: Pode ocorrer porque isso pode pular várias gerações. Então você pode ter cinco filhos e cada um ter um problema diferente como asma, rinite, dermatite atópica. Não é que todos tenham a mesma doença, mas eles tem uma tendência para as várias doenças de hipersensibilidade, que é por alergia e isso pode ocorrer.
ALEX: O senhor falou agora a pouco sobre os tipos de alergia. Quais são os tipos mais freqüentes?
Dr. PAULO: Primeiro é a alergia respiratória que é representada pela rinite e pela asma brônquica. Praticamente elas representam a mesma doença pois 80% dos pacientes que tem asma tem junto a rinite. Já aquele que tem rinite, esse paciente por exemplo, tem apenas 20% ou 30% de asma. Em segundo lugar vem os problemas de pele e no nosso meio brasileiro o mais comum é a alergia por picada de mosquito ou de pulga, que acomete geralmente de 9% a 11% das pessoas, principalmente das crianças.
ALEX: Doutor, o que pode causar uma alergia?
Dr. PAULO: A causa pode ser qualquer coisa. Se é uma alergia respiratória a causa mais freqüente são os ácaros contidos na poeira. Que são pequenos bichinhos e as bolotas fecais deles ficam no ar, a pessoa respira e praticamente pode ter isso. Depois nós temos as alergias por alimentos. A mais comum seria na criança pequena o leite de vaca e mais tarde, no adulto, pelo camarão. Depois nós temos na pele as dermatites de contato. Essas dermatites são mais freqüentes pelo uso de bijuterias porque a bijuteria tem sulfato de nitrato dentro. Já as de ouro praticamente não dão qualquer tipo de alergia.
ALEX: Uma pessoa que tem alergia, por exemplo, a uma picada de inseto. Essa pessoa está mais propensa a ter alergia também por algum tipo de alimento?
Dr. PAULO: Não. Não tem relação nenhuma. Quem tem alergia a picada de inseto não tem relação nenhuma com as outras alergias, seja por ácaro ou por alimentos. E no nosso meio, temos dois tipos básicos de alergias: a alergia chamada estrídulo que é por picada de mosquito e acomete principalmente pacientes portadores de asma e rinite. Já as alergias que podem dar choque ou morte como por exemplo, uma abelha vespa é extremamente raro.
ALEX: Mas uma pessoa que possa ser alérgica a uma picada de abelha, por exemplo, como ela vai saber que é alérgica?
Dr. PAULO: Existem vários padrões que nós classificamos. A abelha quando deixa no local da picada, um edema ou uma bolota dura, essa nós nem damos grande valor porque isso é comum para todos. Mas existem outras que dão placas de urticária pelo corpo e o paciente coça a mão, o couro cabeludo, os lábios incham e ele pode vir até a morte. Nesses pacientes nós temos duas condutas: primeiro fazemos os testes cutâneos começando com doses bem baixas, levando dois dias para fazer o teste e chegamos a um grau que determina que ele tem alergia grave. Além disso, nós dosamos o sangue através de um exame que determina o nível de alergia que ele tem. O que mais vale é o teste cutâneo e a partir do ponto zero desse teste nós começamos a fazer vacina e uma imunoterapia no consultório, com todo o cuidado de quatro a cinco anos consecutivos para que esses pacientes fiquem protegidos quase que totalmente.
ALEX: Doutor, apesar de a gente saber que a alergia é muito ampla e existem vários tipos de alergia, como é feito o tratamento?
Dr. PAULO: Ele baseia-se num tripé que consiste primeiro na profilaxia, ou seja, afastar tudo de positivo que deu nos testes cutâneos. O básico nos pacientes portadores de asma e rinite respiratória é o cuidado, cobrindo os colchões desses pacientes - onde há uma quantidade infinita de ácaros – com capas contra ácaros, afastar lãs, poeira caseira, gatos e cachorros, tirar cobertores de pena e de lã. Isso é a profilaxia da alergia respiratória. Pacientes que tem uma dermatite de contato como por exemplo, o uso de bijuteria, a pessoa não pode mais usar a bijuteria porque não há vacina e nem tratamento para esse tipo de alergia. Outra forma de tratamento é a farmacoterapia, que são remédios basicamente sintomáticos e outro tratamento e que é o mais importante de todos, é a imunoterapia, representada pelas vacinas.
ALEX: A pessoa pode se curar de uma alergia? Ou a alergia não tem cura?
Dr. PAULO: A alergia é uma doença poligênica, ou seja, depende de vários genes. Então se fosse um único gen, ela teria cura total. Segundo, ela é multifatorial, quer dizer, tem muitos fatores que a causam. Eu posso dizer que os pacientes portadores de asma que a gente começou precocemente o tratamento e que fizeram a imunoterapia completa, nunca menos que dois anos, com antígenos bons, verdadeiros e confiáveis, esses pacientes conseguem cura clínica em 70% a 80%. Eles não voltam para nós exceto se voltarem a fumar. Já na rinite, ou seja, aquele paciente que espirra, coça o nariz e tem coriza, a cura é muito menor e varia de 40% a 50% porque na rinite nós temos um componente que estressa e no estresse o paciente não precisa ter um quadro de alergia. Ele ficou tenso, ficou nervoso às vésperas de uma prova, ele começa a espirrar, coçar e a apresentar os sintomas. Mas quando estamos fazendo a vacina contra a rinite, estamos também fazendo a profilaxia contra a asma porque o paciente que tem rinite tem uma tendência a ter asma.
ALEX: Tem pessoas que em certos períodos do ano tem uma coceira pelo corpo todo e parece até que é o dermografismo. Isso tem cura?
Dr. PAULO: Existem várias formas de urticária. Temos a urticária verdadeira em que a pessoa olha e surge aquela pábula vermelha e mais quente que coça e tem uma infinidade de causas como por alimento, estresse ou doenças. Então o médico investiga tudo e faz, inclusive, testes. Existe ainda um tipo de urticária que nós chamamos de factícia ou urticária falsa e é ocasionada por um atrito na pele, por isso recebe o nome de dermografismo, ou seja, ato de escrever na pele. A causa mais comum do dermografismo ao meu ver, é o estresse e não é o estresse pelo sistema nervoso. É uma fadiga física, ou seja, o paciente trabalha demais inicia numa fadiga física e depois mental. A causa mais provável nos últimos trabalhos, é que na microcirculação que nós temos debaixo da pele, ou seja, os pequenos vasinhos que deveriam estar fechados, com o tempo e a fadiga vão se abrindo e ao tocar naquela região, a pele já fica vermelha. Você usa um cinto apertado, ou a moça um sutiã, aquilo ali fica marcado e dá uma urticária por pressão. Na França tivemos em novembro, um simpósio sobre o dermografismo e mostrou que temos que usar antiestamínicos que passam pela barreira emoencefálica, ou seja, vão lá no cérebro, o paciente fica relaxado e há cura em 90% dos casos. Os 10% restantes são associados a outros remédios, chegando a 98%, sendo que 2% não têm cura.
ALEX: Doutor, tem algumas pessoas que, quando estão perto de uma outra pessoa com crise de alergia, elas ficam preocupadas. A alergia não é contagiosa?
Dr. PAULO: Não, nunca. Se fosse eu estava perdido! Ela não é contagiosa.
ALEX: Doutor Paulo, muito obrigado pela sua participação aqui no nosso programa Receita de Saúde! E o programa Receita de Saúde fica por aqui. Voltaremos amanhã com mais um tema de saúde que vai interessar a você. Até lá! |