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ALEX: Muito bom dia! Hoje nós vamos falar sobre adenóide ou carne esponjosa. Adenóide é mais conhecida como carne esponjosa e é um problema que aparece logo na infância. Em alguns casos, o tratamento para a adenóide tem que ser cirúrgico. O Receita de Saúde convidou o doutor Álvaro Machado Pacheco Neto, que é otorrinolaringologista e trabalha em Joinville, para nos falar sobre esse assunto. Doutor, bom dia! Qual é a função da adenóide?
Dr. ÁLVARO: A função da adenóide é de defesa do organismo. Todas as crianças nascem com uma adenóide pequena e a proporção de que ela saia do berço e já não tenha mais toda aquela proteção, e começa a engatinhar e andar, levando coisas ao nariz e praticamente andando com o nariz encostado ao chão quando está engatinhando, isso faz com que bactérias e vírus penetrem no nariz dessa criança e a adenóide então, tem a função de defendê-la. A adenóide tem criptas que captam essas coisas estranhas nocivas ao organismo e interagem com o nosso sistema imunológico, criando anticorpos contra esses agressores do nosso organismo. Então a adenóide tem função na nossa defesa e na nossa imunidade.
ALEX: Quer dizer que todos nós nascemos com a adenóide?
Dr. ÁLVARO: Correto. Todos nós nascemos com a adenóide de pequeno volume e à proporção que a criança tem aqueles contatos com vírus e bactérias, essa adenóide vai crescendo para exercer melhor a sua função. O problema é que esse crescimento, às vezes, vai além daquilo que seria normal e aí passa a se constituir um problema.
ALEX: Como a pessoa percebe que tem um problema na adenóide?
Dr. ÁLVARO: O que mais chama a atenção é que aquela criança passa a ser uma respiradora bucal. Então a criança tem que estar sempre com a boca aberta e percebemos uma hipotonia nos lábios inferiores e eles ficam com a musculatura não tão tensa, o lábio fica caído, o lábio fica seco, essa criança ronca, ela pode ressonar, e em graus mais avançados ela pode ter até a apinéia. Essa criança se cansa mais facilmente, tem dificuldade para ingerir, para comer porque ela precisa respirar e comer a um só tempo pela boca e a criança, e mesmo um adulto, não tem essa capacidade. E isso acaba culminando com alterações importantes na estrutura facial dessa criança, tornando a sua face mais alongada. Essa criança gasta muita energia para respirar e, em conseqüência, ela se desenvolve mal. São crianças que acabam tendo um baixo peso. Então esse conjunto de coisas faz com que a gente já faça uma projeção de uma provável hipertrofia da adenóide dessa criança.
ALEX: Como é feito o tratamento para a adenóide?
Dr. ÁLVARO: Inicialmente nós procuramos orientar a família com relação à postura da criança na cama. O ideal é que se eleve um pouco a cabeceira da cama. Nós procuramos também orientar para que sejam sempre feitos uma boa higiene no nariz da criança com soro fisiológico, principalmente, no sentido de tirar dali os detritos, porque se eles ficarem ali acumulados (e a adenóide propicia isso), vai gerar além do problema da hipertrofia da adenóide, uma inflamação daquela adenóide, aumentando ainda mais o seu tamanho. Então a higiene do nariz é benéfica. Muitas vezes quando a hipertrofia não é exagerada, tentamos fazer com que essa criança utilize no seu nariz algum outro tipo de anti-séptico, para tentar reduzir o volume da adenóide. Quando nada disso é possível, nós então, pensamos na cirurgia. Devo dizer que o simples fato de uma criança ter uma adenóide crescida, não é sinônimo de cirurgia. Se, eventualmente, essa criança passar a ter alguns sintomas e sinais que possam trazer prejuízo, então nós pensamos na cirurgia. O principal problema é a apinéia do sono, ou seja, aquela criança que está dormindo e, de repente, começa a apresentar paradas respiratórias que duram 10 segundos ou mais. Nestas condições nós indicamos a adenoidectomia, ou cirurgia da adenóide, de forma absoluta, pois não dá para esperar que, com o tempo, essa adenóide possa diminuir porque existe um risco muito grande para essa criança. O segundo motivo que nos faz indicar uma cirurgia é quando a adenóide crescida começa a prejudicar o ouvido. Existe um canal chamado Trompa de Eustáquio, que se aloja próxima à adenóide e quando ela é crescida, ela acaba ocluindo esse canal com um prejuízo ao ouvido. A criança passa a ter otites de repetição, acumula catarro no ouvido médio, o tímpano acaba saindo da posição ideal e existe prejuízo para a audição, e em conseqüência, ao aprendizado daquela criança. Então nessas circunstâncias nós temos também que agir rapidamente, não permitindo que essa adenóide ali permaneça. Terceiro motivo para a cirurgia é as alterações dento faciais. Quando a criança nasce ela tem o crânio bastante desenvolvido e a parte da face como lábios e nariz são pequenos, mas conforme acontece o crescimento da criança, o crescimento da face passa a ser muito acentuado e se ela não respirar pelo nariz e, sim pela boca, ela começa a ter alterações no seu desenvolvimento.
ALEX: Inclusive esse problema da adenóide pode até levar a um problema de convulsão?
Dr. ÁLVARO: Isso mesmo, porque existe algo que nós chamamos de reflexo naso pulmonar e quando o ar está passando pelas nossas narinas, o reflexo naso pulmonar é desencadeado e nosso pulmão como que se prepara (relaxa) para receber aquele ar que nós estamos expirando. É por isso que quem respira pela boca cansa mais rapidamente do que quem o faz pelo nariz. Então, se não respiramos pelo nariz e o fazemos pela boca, com freqüência o movimento respiratório não é bem aproveitado e isso terá reflexos na oxigenação e a queda dessa oxigenação faz com que a oxigenação cerebral também fique deficiente e pode levar à convulsão.
ALEX: Como fica o nosso organismo sem a adenóide?
Dr. ÁLVARO: Quando se faz essa cirurgia e se a criança tem uma idade de até três anos, pode haver algum prejuízo da imunidade, mas o organismo procura compensar. Nós temos no nosso organismo outras formações semelhantes à adenóide, como por exemplo, os folículos e linfóides que ficam na parede posterior da faringe. Temos no nosso intestino, placas de paia, que têm a mesma função, temos a amídala lingual e a amídala palatina (que normalmente a gente entende como amídala). Existem então, mecanismos de compensação, mas é claro que nós temos sempre que ver o custo-benefício de cada intervenção dessa. Se eventualmente a criança tem uma adenóide crescida, mas não tem todas aquelas complicações, nós sabemos que aquela adenóide tende a diminuir naturalmente após uns quatro ou cinco anos, mas se eventualmente a criança tem dois ou três anos, eu sei que estou tirando um órgão da imunidade daquela criança, mas ao deixá-lo o malefício é maior do que a presença dele e, nesse momento, indicamos a cirurgia.
ALEX: O senhor falou do malefício se não cuidar. Qual é a complicação que pode causar no futuro?
Dr. ÁLVARO: Apinéias, pode prejudicar o desenvolvimento da criança e a sua estrutura dento facial, ao fazer muito esforço para respirar, o coração tende a compensar isso, causando a hipertrofia das câmaras direitas do coração, então existem determinados prejuízos que são, daqui a pouco, irreparáveis e por isso, tem-se que estar muito atento nesse determinado momento.
ALEX: O aumento da adenóide em adultos pode ser o sintoma de uma outra doença?
Dr. ÁLVARO: Sem dúvida. A adenóide cresce até os quatro ou cinco anos e após isso, vai regredindo lentamente. Quinze ou 20 anos após não temos mais adenóide. Se, ao fazer um exame eu percebo uma pseudo-adenóide em um adulto eu devo me preocupar, porque na imensa maioria das vezes, trata-se de um tumor. Então isso deve ser bem avaliado, feito biópsia para que a gente possa fazer um diagnóstico precoce daquele tumor. Adulto não deve ter adenóide.
ALEX: É impossível se prevenir da carne esponjosa?
Dr. ÁLVARO: Normalmente não. No caso, se alguém apresenta uma adenóide hipertrofiada é porque geneticamente ele já nasceu com aquela tendência. Não existe como você preservar o ambiente, a alimentação e tudo o mais que possa fazer com que isso não venha a acontecer. O que ocorre é que se a criança também tem alergia, essa adenóide vai aumentar de volume pela própria alergia. Então aí sim, eu posso fazer uma prevenção, uma profilaxia daquele ambiente onde a criança vive, eu posso medicá-la, usar vacinas e outros, para prevenir esse eventual aumento da adenóide.
ALEX: O Receita de Saúde falou hoje sobre adenóide com o doutor Álvaro Machado Pacheco Neto, que é otorrinolaringologista em Joinville. Doutor, muito obrigado pela sua participação aqui no nosso programa.
E o Receita de Saúde fica por aqui. Voltaremos amanhã com mais um tema de saúde que vai interessar a você. Até lá! |