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Aspectos Psicológicos da Gravidez - Dra. Maria José Varella

ALEX: Muito bom dia! Estamos começando mais um programa Receita de Saúde e hoje nós vamos falar sobre os aspectos psicológicos durante a gravidez. A notícia, o processo de gravidez e também o parto são situações muito importantes para a mulher, o homem e também, todos da família. Além das alterações físicas no corpo da mulher, todos ficam emocionalmente envolvidos pela perspectiva do nascimento de mais uma pessoa. Para dar algumas orientações aos futuros papais, principalmente, aos de primeira viagem nós convidamos a psicóloga Maria José, que trabalha no Hospital Dona Helena, em Joinville. Bom dia, Maria José! A gravidez é um período de transição que envolve toda uma adaptação do meio familiar, por isso, eu gostaria de saber se a gravidez realmente afeta a parte psicológica da mulher?

Dra. MARIA JOSÉ: Afeta. A gravidez é um período de adaptação. É um período que a mulher tem para se adaptar à chegada do novo bebê, onde ela vai sofrer alterações físicas internas e corporais, como toda a parte do metabolismo, os sintomas que a gestante tem durante a gravidez, a adaptação nos relacionamentos, a forma do casal se relacionar sofre mudanças e esse é um período de adaptação e com os demais membros da família também.

ALEX: A mulher fica mais sensível?

Dra. MARIA JOSÉ: Sim. Muito mais sensível. Por um lado é por causa das alterações dos hormônios no organismo que afetam a sensibilidade e, com isso, vem a parte emocional, embora uma mulher seja muito diferente da outra, ou seja, uma vai reagir de uma forma diferente da outra. A mulher fica mais sensível a notícias tristes, discussões, o humor dela varia muito, sentindo-se bem ou irritada, devido a essa alteração hormonal e emocional que ela sofre com a gravidez.

ALEX: O homem também é afetado psicologicamente durante a gravidez da esposa?

Dra. MARIA JOSÉ: Eu posso dizer que hoje em dia sim, muito mais do que antigamente, há duas ou três gerações. Hoje a gente pode falar que o homem também é grávido, pois ele participa da consulta com a sua esposa, participa de cursos para gestantes que os postos de saúde oferecem e ele se sente grávido também, e com isso ele sofre alterações. Às vezes a gente vê que os pais ficam barrigudos antes que as mães, principalmente, nos três primeiros meses.

ALEX: Como esse aspecto psicológico é muito importante durante a gravidez, essa alteração no equilíbrio emocional do pai e também da futura mamãe pode fazer com que a gravidez se torne uma ameaça ao equilíbrio do casal durante a gestação da mulher?

Dra. MARIA JOSÉ: É muito importante que o casal fique unido durante a gravidez. A relação de franqueza é muito importante, principalmente em assuntos mais delicados, como o relacionamento sexual do próprio casal, que fica muito diferente e o casal precisa conversar sobre esses assuntos abertamente e não se isolar. A esposa não deve achar que o marido não está dando atenção a ela por não olhar a barriga ou conversar com o bebê ou o pai achar que a esposa não lhe dá atenção e só se preocupa com o bebê ou com o enxoval. Os dois precisam estar juntos. Essa criança precisa de pai e mãe se entendendo e conseguindo conversar.

ALEX: Doutora é normal também que o pai se sinta um pouco "rejeitado" pela esposa por causa da gravidez. É importante que a mulher saiba disso para que haja harmonia durante a gestação?

Dra. MARIA JOSÉ: Sim. É importante que a mulher saiba que ele também se sente colocado de lado, como por outro lado, o homem precisa saber que a mulher passa por um período de muita insegurança, medo e alterações físicas. Além disso, há o medo que de o homem não se sinta mais atraído por ela porque ela está com um corpo diferente. Por isso, se os dois não conversarem muito e não falarem desses sentimentos, isso pode afastar o casal.

ALEX: Pelo fato de a mulher ter essa mudança no corpo durante a gravidez, sua auto-estima fica um pouco baixa. Isso pode causar depressão?

Dra. MARIA JOSÉ: Pode. A alteração corporal pode influenciar muito na vivência do período de gravidez dessa mulher, aumentando a insegurança, dificultando o relacionamento conjugal e social dela, e isso pode tomar um volume ou uma intensidade até apresentar características de depressão, que são: choro, isolamento, falta de vontade de cuidar de si mesma.

ALEX: Agora falando dos filhos mais velhos, os filhos que já existem. Como os pais podem preparar esses filhos para a chegada do bebê?

Dra. MARIA JOSÉ: É muito importante que esses filhos participem ativamente desse processo de gravidez e se sintam partes importantes na família e não que eles sejam excluídos. Eles precisam saber como é a gravidez e aí começam as curiosidades de como o bebê aparece. É importante que o casal participe disso e que traga essa criança a participar da chegada do irmãozinho, sem sentir que esse irmãozinho vai tirar o lugar dele dentro de casa. São bastante comuns as pessoas dizerem que ele vai perder o seu colo ou as suas mordomias e isso afasta a criança do bebê e a gente precisa procurar fazer justamente o contrário, dizendo que terá colo para dois, que ele também poderá dar colo para o irmãozinho. Na verdade essa criança precisa sentir que o irmãozinho vai chegar como um parceiro e não como um invasor.

ALEX: Geralmente a mulher sente muito medo do parto. O que ela precisa fazer para ter um parto tranqüilo e gratificante?

Dra. MARIA JOSÉ: É importante que ela separe o que é verdade e o que é mito. O medo da dor, o medo de que o corpo não volte ao normal, principalmente em parto normal, o medo de que as enfermeiras venham a tratá-la mal durante o trabalho de parto, tudo isso é mito e precisa ser tirado da mulher. Mas como ela vai tirar esses mitos? Buscando informações com pessoas técnicas, indo ao posto de saúde para conversar com enfermeiras e conversar com o médico no pré-natal.

ALEX: Doutora tem uma questão que a gente observa muito nas novelas e nos filmes que quando aparecem cenas de parto, geralmente a mulher fica chorando, com muita dor e tal. Isso hoje em dia é muito difícil de acontecer?

Dra. MARIA JOSÉ: É até porque ela chorar e sentir dor são coisas que acontecem de uma hora pra outra e a gente sabe que o trabalho de parto não é assim, ele leva um tempo, um tempo em que a dor não é contínua. Então a mulher vai ter a contração, vai sentir a dor, que é uma dor suportável e ela vai passar um tempo sem ter essa dor. Não é como a dor de dente que só pára de doer quando o dentista faz alguma coisa. Ela tem o tempo de relaxar e a mulher estando numa situação segura, com o companheiro junto, participando e tranqüilizando essa mãe, não entrando em desespero ou adiantando a hora de levá-la à maternidade, mas sim, tomando um banho quente, relaxando (exceto claro, em situações emergenciais) é importante.

ALEX: Por que tantas mulheres entram em depressão pós-parto?

Dra. MARIA JOSÉ: Hoje em dia se fala mais da depressão pós-parto. Ela está mais em evidência do que a tempos atrás. A mulher tem uma vida diferente, mais agitada, muitas vezes ela trabalha fora e isso tudo pode levar de uma forma geral a depressão, que é uma doença que vem aumentando na população em geral, não somente no parto. E a depressão pós-parto é uma depressão igual a outra, só que ocorre justamente nesse período. Tem uma situação que a gente chama de normal, que é uma situação reatista e ocorre nos primeiros 15 dias e a mulher passa por períodos de tristeza, melancolia, choro, depois volta ao normal, tem medo de cuidar do bebê, mas ela cuida do bebê. Tudo isso é uma reação normal e qualquer mulher pode ter, mas isso é diferente de depressão.

ALEX: A mulher que está grávida pode fazer alguma coisa para evitar uma depressão pós-parto?

Dra. MARIA JOSÉ: Não. Depressão não tem como a gente evitar porque não temos controle sobre o que causa a depressão. Às vezes a vida pode estar perfeita, mas a pessoa está com depressão. É preciso se cuidar, procurar ser franca consigo mesma, não se exigir perfeita demais, não se culpar por situações que não sejam relevantes. É fácil falar, mas é difícil fazer. O que é importante nesse momento é que a família consiga observar e detectar uma depressão porque se ela estiver deprimida, não conseguir cuidar de si mesma e nem do bebê, isso é um sinal de que ela está precisando de ajuda, e às vezes, essa ajuda precisa ser profissional mesmo, porque a mãe deprimida não tem condições de formar um vínculo ou uma relação afetiva estreita com esse bebê. E a criança precisa muito da mãe para se tornar um adulto saudável, afetivamente saudável.

ALEX: O Receita de Saúde de hoje falou sobre os aspectos psicológicos durante a gravidez. Nós conversamos com a psicóloga Maria José que nos falou tudo e mais um pouco sobre este assunto. Doutora, muito obrigado pela sua participação aqui no nosso programa!

Dra. MARIA JOSÉ: Eu que agradeço.

ALEX: Na próxima sexta-feira, dia 11, continua a nossa série sobre gestação. O tema é: "cuidados dentários para a gestante e o recém-nascido". Não perca!

RECEITA DE SAÚDE - Ficha Técnica
Direção: Andressa Larsen
Apresentação: Alex Paiva
Edição: Paulo Giovane
Transcrição: Gabriela Nogueira
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