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ALEX: Muito bom dia! Nós estamos começando mais um programa Receita de Saúde e hoje você vai saber um pouquinho mais sobre Aids. Quem vai conversar conosco é o doutor Luiz Henrique Melo, que é infectologista e já está aqui no estúdio para conversar conosco. Doutor Luiz Henrique, muito bom dia! O que é a Aids para quem ainda não sabe a respeito desse assunto?
Dr. MELO: A Aids é uma infecção ocasionada por um vírus que destrói o sistema de defesa do paciente levando-o a ter infecções que já teve, ou infecções que são incomuns normalmente na prática clínica.
ALEX: Como uma pessoa contrai o vírus da Aids?
Dr. MELO: A doença é adquirida de três formas básicas: através de relação sexual (seja ela homossexual ou heterossexual), através de transfusão de sangue e derivados ou uso de drogas injetáveis e a última forma seria a mãe contaminada transmitindo para o seu filho.
ALEX: Dos tipos de atividade sexual, qual é o que tem mais chance de transmissão do vírus da Aids?
Dr. MELO: O sexo anal tem mais chance de transmissão que o sexo vaginal, que por sua vez, tem mais chance de transmissão que o sexo oral. No sexo oral, se houver a ejaculação tem tanta chance quanto o sexo vaginal, mas em menor proporção.
ALEX: Doutor, o que o senhor pode nos dizer sobre os números? Quais são as estatísticas tanto no Brasil quanto no mundo?
Dr. MELO: No mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), no final de 2003, tínhamos aproximadamente 42 milhões de pessoas contaminadas, o que representa mais ou menos, 14 mil novas infecções por dia e 3 milhões de óbitos por ano. Sendo que acumulado, desde 1982 até agora, teríamos 25 milhões de pessoas que foram acometidas por Aids e faleceram. No Brasil, até o final de dezembro de 2003, nós tínhamos 310.301 casos, sendo 30% em mulheres. Esses são dados cumulativos, mas se formos ver os dados atualizados ano a ano, o número de casos em mulheres está muito próximo ao número de casos em homens, caracterizando a mudança do perfil homossexual para o heterossexual. O número de casos em crianças é de menos 2% desse total. Em Santa Catarina, nós temos 10.577 casos e quando a gente avalia os números parece pouco, mas quando avaliamos a incidência – que é o número de casos por 100 mil habitantes – e pegamos os dez primeiros municípios em incidência no Brasil, nós vemos que Santa Catarina tem quatro cidades nesse ranking. Em primeiro lugar está Itajaí, com maior incidência no Brasil, em segundo lugar Balneário Camboriú com maior incidência. Em sétimo lugar temos Florianópolis e em oitavo lugar temos São José. Então Santa Catarina é um estado com algumas peculiaridades em termos de incidência e transmissão. A transmissão por uso de drogas injetáveis no nosso Estado permanece ainda bastante acentuada, num perfil diferente do Brasil, que é mais sexual.
ALEX: Por que o estado de Santa Catarina tem um número tão alto de infectados com o vírus da Aids?
Dr. MELO: Joinville, por exemplo. Joinville era o 38º lugar e se não me falha a memória, está em 14º lugar em incidência. Por que Joinville subiu tanto em um ano? Por vários motivos. Foi só a subida no número de casos? Eu acredito que o número de casos aumentou, mas o que melhorou foi a nossa capacidade da unidade sanitária em levantar os dados e catalogar as pessoas infectadas. Então isso é um fator que contribui para o aumento desses índices, já que um serviço de saúde bem estruturado acaba avaliando mais os pacientes e conseguindo identificar mais pacientes infectados. Um outro fator que leva a termos o número de casos aumentados é o Porto de Itajaí e o Porto de São Francisco do Sul. Santa Catarina tem um fluxo muito grande de pessoas. Você indo daqui para Blumenau, vê na beira da estrada uma série de profissionais do sexo que caracterizam o trânsito de caminheiros, favorecendo também essa transmissão. E as drogas que são a característica principal. A gente sabe que Santa Catarina passa pela rota de tráfico de drogas e isso também seria um fator que favoreceria essa incidência aumentada. Diria eu, que esse é um dos fatores mais importantes a serem trabalhados, que é o uso de drogas no nosso Estado.
ALEX: O senhor falou agora a pouco que o número de mulheres infectadas já está quase igual ao número de homens. Como o senhor explica esse aumento de mulheres infectadas com o vírus da Aids?
Dr. MELO: É fácil de se explicar porque a doença começou em grupos minoritários que seriam usuários de drogas e homossexuais. Com a conscientização da importância da prevenção nesses grupos, e as mulheres ficando em segundo plano nessa fase inicial, começou então a haver essa modificação. Gradativamente foi migrando o número de casos para mulheres e a mulher não estava preocupada até certo ponto com isso. Também a sociedade brasileira um tanto quanto machista, ainda classificava a Aids como uma doença de homossexuais, mas os números agora vêm demonstrando que a Aids não tem grupo de risco e sim, atitude de risco, quer dizer, você se expõe ao risco seja homossexual, heterossexual ou bissexual, ou seja, o seu risco vai ser o mesmo de um indivíduo que não é desses grupos e que, embora possa não ser promíscuo, por exemplo, mas está submetido ao risco.
ALEX: Em relação aos jovens, que recado o senhor poderia dar?
Dr. MELO: Se a gente analisar os números do mundo a gente vê que a maioria dos casos novos, ou seja, esses 14 mil casos, a grande maioria está na faixa entre os 14 e os 35 anos. Então isso caracteriza realmente a fase da atividade sexual mais intensa. E é fundamental a conscientização da importância do uso de preservativos no sentido de bloquear essa circunstância. A irresponsabilidade natural da adolescência e até a falta de informação sobre a própria doença e a forma de prevenção, faz com que a pessoa se arrisque nessa circunstância - e aí principalmente as meninas, é onde têm uma chance maior do que no homem, mas indiscutivelmente o homem também tem risco – e expõe desnecessariamente a pessoa a chance de se contaminar com o vírus e ficar com o resto da sua vida, hoje pelo menos, tendo que ter acompanhamento médico bem próximo.
ALEX: Falando das conseqüências. Quais as conseqüências do vírus HIV para o infectado?
Dr. MELO: A pessoa pode desenvolver uma série de infecções a partir do momento em que a doença se manifeste. A gente precisa ressaltar que muitas vezes a doença é diagnosticada no seu período de incubação onde não há manifestação clínica e, portanto, nós podemos ter um tratamento bem mais efetivo do que quando a pessoa já desenvolveu a doença. Quando ela desenvolve a doença, nós temos capacidade de alterar o quadro imunológico e tratar as infecções. Por outro lado, há a possibilidade de não se ter sucesso nessas circunstâncias. Então a recomendação é: se você acredita que teve alguma atitude de risco, é interessante fazer o teste. Existe o teste na unidade sanitária que é feito nas unidades sanitárias do Estado, onde é feito gratuitamente e inclusive, sigilosamente (se você não quiser se identificar), no sentido de avaliar se você possui ou não o vírus para iniciar o tratamento. Muitas pessoas têm medo de fazer o exame porque tem medo de saber que tem a doença e com isso, estragar sua vida, como as pessoas costumam dizer, mas na verdade, o fato de você identificar precocemente é um fator decisivo para o sucesso do tratamento do HIV.
ALEX: Doutor, explique para a gente, passo a passo, o que a pessoa deve fazer para saber se tem ou não o vírus da Aids? Como ela deve proceder para fazer o exame?
Dr. MELO: Ela pode ir no centro de saúde e buscar o exame de forma sigilosa. Ela pode ir no posto de saúde, falar com o médico, explicar a situação e o médico pedir o exame também pelo posto de saúde e também pelo SUS. Esses exames são gratuitos e não necessariamente você precisa pagar para fazer os exames. É um exame que hoje não é tão demorado. Demora quando você tem que fazer o teste confirmatório, ou seja, quando o primeiro exame dá positivo e você precisa confirmar o resultado. Nesse caso o resultado pode levar até uns 15 dias para vir. Você pode procurar o seu médico de família, conversar com ele, explicar a situação e ver se é necessário, pois muitas vezes não é nem necessário fazer o exame, é mais uma paranóia que às vezes, ocorre na cabeça das pessoas. O pronto-socorro não é o melhor lugar para fazer isso e principalmente, uma recomendação: não doe sangue apenas para fazer o teste. É sabido que o banco de sangue faz os testes de HIV e eu não indico isso porque você pode estar na fase de janela imunológica, faz-se o teste, o teste é negativo, mas você pode contaminar a pessoa, já que um sangue contaminado tem 90% de chance de contaminar a outra pessoa. Portanto, se você suspeita que tem a doença, não vá ao banco de sangue doar sangue para fazer o teste.
ALEX: Doutor, nós queremos agradecer muito a sua participação aqui no nosso programa e eu gostaria que o senhor nos falasse sobre os últimos avanços na área médica para o tratamento da Aids. O que o senhor pode nos dizer sobre isso?
Dr. MELO: Nós temos hoje novas drogas, novas formulações de drogas antigas e novas estratégias de tratamentos com drogas antigas. Então nós estamos fazendo tratamentos com uma dose ao dia. Temos tratamentos com três comprimidos ao dia, com a potência muito boa. Se a gente recordar, há anos atrás, não tinha um tratamento com menos de 10 ou 12 comprimidos ao dia. Isso tudo vem fazendo com que a gente tenha uma qualidade de vida melhor para o indivíduo. O tratamento é bastante efetivo e hoje nos atrevemos a dizer que pacientes que fazem um acompanhamento adequado e têm uma adesão completa ao tratamento, têm uma sobrevida normal, como uma doença crônica, mas hoje a doença é controlável. Vacina - nós não temos perspectiva para os próximos anos, uma vacina totalmente eficaz. Existem algumas vacinas em andamento, mas que já, sabidamente não vão dar uma proteção de 100% a todos os grupos.
ALEX: No programa de hoje nós falamos sobre Aids. Quem está aqui conosco é o doutor Luiz Henrique Melo, que é infectologista. Doutor, muito obrigado pela sua participação aqui no nosso programa Receita de Saúde. E o programa Receita de Saúde fica por aqui. Voltaremos amanhã com mais um tema de saúde que vai interessar a você. Até lá! |