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ALEX: Bom dia! Estamos começando mais um programa Receita de Saúde e nós vamos falar hoje sobre a infância. A infância é um período de muitos perigos. Nessa etapa da vida, são comuns as quedas, batidas e atropelamentos que podem causar sérios danos à integridade das crianças. Só para se ter uma idéia, uma pesquisa do Instituto Neuron de Florianópolis, mostra que a faixa entre zero e 14 anos concentrou a maior parte das mortes por atropelamento entre 1991 e 2000. Além disso, por descuidos típicos da idade, as crianças são vítimas de tombos de bicicleta, quedas de árvores entre outros acidentes que podem causar sérias lesões. Essas lesões são muitas vezes irreversíveis quando afetam a coluna ou o cérebro e podem levar até a morte. O mais importante é evitar os acidentes, mas quando eles ocorrerem, os pais precisam agir com calma, pois se não for assim, podem piorar a situação. Por exemplo, levantar uma criança que acabou de cair depois de bater a cabeça é um erro. Você vai saber por que daqui a pouquinho, durante a nossa conversa com o doutor Irineu Maibroudbeker. Ele é neurocirurgião e atende no Hospital Infantil de Florianópolis. Doutor Irineu, bom dia! Quais são os acidentes mais comuns na infância?
Dr. IRINEU: Infelizmente os acidentes mais comuns na infância são os acidentes de trânsito, seguidos pelos acidentes domésticos como quedas e queimaduras na cozinha. E quando aumenta um pouco a idade, entram as bicicletas, os skates e os esportes.
ALEX: Como esses acidentes podem ser evitados?
Dr. IRINEU: Sem dúvida a prevenção é o tratamento ideal de qualquer acidente, só que prevenir nem sempre é fácil porque envolve vários aspectos. O mais importante é a realização de campanhas educativas contínuas, divulgando coisas que ocorrem, assustando até com cenas fortes, eu acho que é válido. No trânsito em si, é mais difícil ainda porque são muitos os fatores que podem causar acidentes, desde os descuidos dos motoristas e pedestres, a ingestão de bebidas alcoólicas e drogas e até as colisões em estradas onde vai depender das condições das estradas, da conservação dos veículos, da fiscalização, da punição dos infratores e de vários fatores. Mas o mais importante é o exemplo que vem de casa, orientando as nossas crianças, avisando-as dos perigos e mostrando que as coisas acontecem e que nós podemos ser as próximas vítimas, ou seja, a gente não é imortal, como eles se julgam nessa idade.
ALEX: As crianças têm menor resistência às batidas?
Dr. IRINEU: Pelo contrário, na verdade as crianças têm maior resistência às batidas. Elas têm um organismo mais elástico e mais sadio, sem doenças prévias, como acontece num adulto, como doença do coração, do cérebro e assim por diante. Como neurocirurgião, eu falo sempre do cérebro e, nas crianças, o cérebro tem uma capacidade maior de absorver os impactos. Infelizmente a criança também está mais sujeita às batidas, então elas batem mais porque não têm a coordenação motora ainda, porque elas estão aprendendo a andar, estão aprendendo a correr, subir em árvores, andar de bicicleta, atravessar a rua e todas as outras experiências de vida que elas vão enfrentar. Por isso acabam se acidentando mais, mas na verdade não têm uma menor resistência à batida.
ALEX: Depois de um acidente, quais os sinais que devem servir de alerta para que os pais procurem um médico?
Dr. IRINEU: Novamente eu vou falar como um neurocirurgião, até porque as batidas na cabeça assustam mais do que um braço quebrado. Só que qualquer acidente que implique numa certa violência, ele deve ser avaliado por um médico, mesmo que a criança esteja bem. É diferente uma criança de dois anos cair de um triciclo na grama do que outra cair do segundo andar de um prédio, ou mesmo, do alto de um beliche. Então existe um impacto maior onde há a necessidade da consulta com o médico. Se ela bateu a cabeça, se ela desmaiou, ou se depois da batida está sonolenta, tem vômito ou dor de cabeça, sempre um médico têm que ser consultado.
ALEX: Quais são os erros mais comuns cometidos pelas pessoas que socorrem uma criança que acabou de cair e bater com a cabeça?
Dr. IRINEU: Talvez o erro mais comum seja a pressa com que as pessoas tentem socorrer a criança em função da angústia e do nervosismo, que é normal frente a uma ocorrência como essa. Nessa hora, cada minuto parece uma eternidade, só que eu sempre gosto de lembrar que a maioria das quedas, mesmo com batida na cabeça, não são tão graves como as pessoas imaginam que elas sejam. Também, a maioria das batidas pode causar um pequeno desmaio, mas geralmente a criança acorda após alguns minutos e às vezes, em menos de um minuto. É lógico que esse minuto vai parecer uma eternidade, mas é preciso ter calma nessa hora. Outra coisa importante é que o choro, que muitas vezes assusta, é um bom sinal, ou seja, a batida foi forte o bastante para causar a dor, mas não o suficiente para causar um desmaio. Por isso, nada de pegar no colo e sair correndo, nada de choreio ou gritaria porque isso vai acabar causando pânico na criança e em outras pessoas que poderiam ajudar e, com isso, podemos agravar o caso de uma criança que pela evolução natural se resolveria sozinha em alguns minutos.
ALEX: O que os pais devem fazer até a chegada do atendimento especializado?
Dr. IRINEU: A primeira coisa que precisa ser garantido é que a criança respire bem, desobstruindo a boca da criança, deixando-a de lado, afrouxando as roupinhas dela e esperando um pouquinho. Enquanto isso, outra pessoa, se possível, vai procurar ajuda, chamando os paramédicos ou mesmo um vizinho, dependendo do tipo de socorro que cada comunidade oferece. A segunda coisa é estancar qualquer tipo de sangramento. Na maioria das vezes, apenas fazer uma compressão da área que está sangrando com um paninho limpo e pequeno (porque um pano maior pode absorver uma quantidade grande de sangue, ao invés de estancá-lo), comprimindo até que o sangue seja estancado é o suficiente até que chegue o atendimento médico. Se houver uma fratura muito evidente, o que vai se procurar é uma imobilização provisória, só para evitar que aquele movimento contínuo da área da fratura acabe provocando mais dor e mais apavoramento. E no mais, ter calma, aguardar o socorro adequado para que na tentativa de ajudar, não acabe prejudicando uma criança que iria melhorar sozinha.
ALEX: Vamos ouvir agora o depoimento de uma enfermeira da área de pediatria do Hospital Dona Helena que vai nos dizer quais são os acidentes mais comuns entre as crianças e o que os pais devem fazer para evitar esses tipos de acidentes:
“Bom dia! Meu nome é Juliane Simas Dresser eu sou enfermeira do Hospital Dona Helena da área de pediatria, e os acidentes mais comuns envolvem fogo (queimaduras), materiais perfuro cortantes (tesouras, faca, madeira ou qualquer coisa que tenha uma ponta que possa causar algum tipo de ferimento), choque em tomadas e rede elétrica, intoxicação medicamentosa ou por produto de limpeza e até mesmo brinquedos inapropriados para a idade e sem o selo do INMETRO. São brinquedos que às vezes vêm com as peças soltas e a criança acaba engolindo ou até se ferindo de alguma forma. A recomendação aos pais é de que usem sempre do bom senso para estar ensinando e orientando as crianças quanto ao que pode causar algum tipo de ferimento, de uma forma bem clara, simples e repetitiva, que é o mais importante. Manter esses produtos que possam causar algum tipo de acidente, longe das crianças como produtos de limpeza numa altura que elas não alcancem, medicamentos também e o próprio cozimento dos alimentos nas bocas de trás do fogão, com os cabos virados para dentro, onde as crianças também não tenham contato e protetores de tomadas para evitar qualquer tipo de choque”.
ALEX: Doutor, depois de uma batida ou de uma queda, por quanto tempo a criança deve ser observada para que o pai ou a mãe tenham certeza de que não houve um traumatismo craniano ou outra lesão qualquer?
Dr. IRINEU: Qualquer batida forte tem que ser avaliada por um médico. Se houve uma batida mais leve que não justificou uma consulta, nas próximas horas o que vai se observar são algumas coisinhas como um aumento de volume no local da batida (os famosos galos), se a criança está sonolenta, se está vomitando, se está se queixando de dor de cabeça, se está irritada ou se apresenta qualquer alteração deve ser motivo para uma consulta, lembrando que prevenir é melhor do que remediar. E a regra geral é que uma batida não muito forte não apresenta complicação de tipo nenhum depois de 24 ou 48 horas.
ALEX: O Receita de Saúde falou hoje sobre acidentes na infância. Quem conversou conosco foi o doutor Irineu Maibroudbeker, que é neurocirurgião e trabalha no Hospital Infantil de Florianópolis. Doutor, muito obrigado pela sua participação aqui no nosso programa e gostaríamos que o senhor deixasse algumas recomendações finais aos pais que estão nos ouvindo agora.
Dr. IRINEU: Eu agradeço a oportunidade de poder falar de um tema tão importante quanto os acidentes na infância e mais uma vez, ressaltar a importância da prevenção dos acidentes porque depois que ocorreu, a gente já não tem mais o controle sobre a coisa e às vezes, um acidente bobo pode ter conseqüências muito sérias. Por isso, prevenir, educar as nossas crianças, dar exemplo, explicar repetitivamente através de campanhas como o programa de vocês, vai ser o prêmio que a gente quer de ter ao nosso lado uma criança feliz, brincando e com saúde, que é o que importa.
ALEX: O programa Receita de Saúde fica por aqui. Voltaremos amanhã com mais um tema de saúde que vai interessar a você. Até lá! |